Com danças e cantos, eles invocam ritos de fertilidade e a terra passa a produzir mais. Conseguem acalmar o mar. Praticam rituais milenares, mas garantem que só agem para o bem. São os feiticeiros da Ilha de Man, Inglaterra. A cada dia que passa esses cultos recebem mais adeptos. A força dos feiticeiros é tão grande que eles agiram, em outros tempos, sobre Napoleão. E recentemente contra Hitler que representava o mal personificado. A Inglaterra tem tradição em matéria de feitiçaria. Alguns reis, como Eduardo III, teriam sido iniciados em cultos secretos.

As civilizações são, certamente, mortais. Seus corpos profanos, sob a forma de cacos deteriorados e de paredes desmoronadas, apodrecem e ressecam-se sob as areias da história. O que sucede, entretanto, com suas almas? Com o que essas civilizações acreditavam ser sagrado? A etnologia moderna pretende demonstrar que não existe crepúsculo para os deuses – apenas eclipses…

Todas as religiões conquistadoras supõem ter assimilado ou destruído as que as precederam. Na verdade, mal lhes fazem sombra. Atualmente, o cristianismo deve assumir sua lenta e difícil mutação econômica. Precisa apelar a todas as suas forças vivas, mesmo às que continuaram a existir, simbolicamente, entre os bárbaros. E eis que descobrimos que o paganismo ainda não morreu: o Deus de Chifres dos antigos gauleses, deus dos pastores nômades, da vida animal e da vida humana (que são a mesma vida) e de um mundo sempre novo e jovem, jamais ameaçado por qualquer fim ou destruição, ressuscita. Isso acontece hoje na Grã-Bretanha céltica e, é bem possível, ainda em outros lugares. Eu quis ver o fenômeno de perto. Tomei um avião. Desembarquei num aeroporto parecido com qualquer outro aeroporto moderno. E fui recebido pelo Deus de Chifres. Ou, pelo menos, por seus Sacerdotes e Sacerdotisas, o que é a mesma coisa.

Foi na Ilha de Man, no mar da Irlanda, em Castletown, pequeno porto da costa sul, na região dos celtas, entre a Escócia, Irlanda e a Bretanha. A ilha se parece com qualquer outra ilha: podemos visitá-la como meros turistas. Mas observem bem ao seu redor e, se usarem seu terceiro olho – o que permite que descubra o invisível, perceberão que os gatos não têm cauda, que os carneiros têm quatro chifres e que o verdadeiro rei, um gigante, dorme sob uma montanha há milhares de anos esperando o cavaleiro que encontrará o caminho subterrâneo para ir acorda-lo. Os pagãos de boa vontade chegam a ouvi-lo respirar.

Interroguei os renovadores do antigo culto, assisti a suas cerimônias, participei delas, recolhi testemunhos. Ainda estou desconcertado.

De onde vêm os feiticeiros?

A Meca do novo paganismo chega realmente a surpreender. Imaginemos uma casa com aparência de cenário de papelão para um filme de terror – um moinho repleto de estranhos objetos usados que é chamado de museu e, enfim, um pequeno bar-restaurante que nunca chega a ficar totalmente vazio. Todo o conjunto pertence ao Sr. e Srª. Wilson. A Srª Wilson é celta, nascida em Ouessant. É baixa, morena, esperta, inteligente e enérgica. Ela é a grande Sacerdotisa. Seu marido é tão celta quanto ela, pois é escocês. É alto e belo. Compartilha de todas as convicções de sua esposa. É, portanto, um witch.

Em português, witch só pode ser traduzido por feiticeiro ou feiticeira. Na verdade, o witch não é bem isso. Basta fazermos algumas considerações etimológicas para chegarmos a essa conclusão. Em francês, o vocábulo sorcier (feiticeiro) aparece pela primeira vez no século 12. a palavra latina sorcerius, da qual deriva este vocábulo, já era usada quatro séculos antes e sua raiz, sors, designa o conjunto de práticas mágicas de adivinhação, e, portanto, por extensão o paganismo.

Na Idade Média, os feiticeiros eram adoradores do Diabo. Mas não se tratava aí, do Satã das Escrituras, do Lúcifer expulso do paraíso. O inimigo medieval do Deus cristão tem chifres e pés bifurcados: é o antigo deus celta. A bruxaria da França medieval, e até o século XVII, apresenta, portanto duas formas distintas: a vontade deliberada do sacrilégio para com a religião nova e oficial e a permanência desesperada da religião antiga e “derrotada”. Ora, a mesma confusão não existe na Inglaterra, pelo menos semanticamente: sorcerer e sorcery estão ligados a mesma origem latina e significam o sacrilégio voluntário, as missas negras e as trevas do cristianismo.

Mas o que significam witch e witchcraft? Witch vem do saxão wica que deu na palavra wise que significa sábio. E qual é a origem da palavra wica? E, alemão witz quer dizer espírito e weise quer dizer sábio. Todas essas palavras têm seus correspondentes em sânscrito e em grego antigo: em sânscrito é a palavra veda (a ciência por excelência, o mais alto grau de conhecimento) , e em grego é oida (eu sei), da esma família lingüística à qual pertence a palavra idéia. Talvez druida seja uma melhor tradução para witch.

Terá havido uma filiação consciente de antigas tradições mágicas e religiosas? Assisti a algumas cerimônias – e elas me lembraram tanto as descrições de caças às bruxas medievais quanto certas pinturas pré-históricas. Lembro-me de Monique Wilson, esta mulherzinha estranha, ao mesmo tempo grande, simples e bela em sua nudez que nada tinha de perverso ou de atormentador, segurar uma velha espada de seis séculos de idade e desenhar um círculo mágico ao redor do altar onde ela iria oficiar os ritos sagrados da seita, como rainha de seu coven (convento, grupo, reunião).

Eu a vi diante dos outros feiticeiros que estavam no interior do círculo, tendo a sua frente o altar com os objetos sagrados (punhal e corda), destinados a “ligar o cadáver antes de sua aparição diante da morte”. Ela recitou uma misteriosa ladainha e depois, sem implorar à divindade, pediu aos assistentes que se concentrassem e que projetassem a vontade. Ela cavalga uma vassoura em torno do círculo. Não é preciso se iniciado para compreender o símbolo da vassoura cuja extremidade superior em marfim reproduz de maneira bem realista o órgão sexual masculino. Vi, então, os homens se prostrarem e beijarem aos pés da rainha.

A Rainha dos Feiticeiros

Comédia? Ou impulso oriundo das profundezas do inconsciente coletivo? Velas e lâmpadas lançavam luzes tremulantes sobre o ambiente. O incenso tornava o ar azulado. Eu senti uma espécie de força física.

Os feiticeiros da Ilha de Man são sinceros. “Nós possuímos uma religião muito antiga. Que foi praticada na Europa Ocidental antes de sua romanização. Os Deuses de Roma, e mais tarde o Deus dos cristãos, suplantaram- se largamente, mas não de todo. Ela sobreviveu clandestinamente. O tempo da perseguição acabou e a Antiga Religião está renascendo”. Esta ressurreição não consiste somente na reconstituição mais ou menos fiel das antigas cerimônias do culto. Ela se manifesta, sobretudo pelo exercício dos poderes “mágicos”: os witches da Ilha de Man gabam-se de agir, não somente sobre o mundo material, mas também sobre os acontecimentos.

Mas se defendem com veemência contra qualquer acusação de “magia negra”. Não devemos falar-lhes de feitiços maléficos, ritos diabólicos ou orgias escandalosas. Uma reportagem feita recentemente sobre eles descreveu dessa forma toda a panóplia da bruxaria clássica. Foi por esta razão que fui de início acolhido com certa resistência. Mas logo perceberam que eu era uma testemunha bem intencionada. A Srª. Wilson afirmou-me com toda naturalidade que ela realmente podia mudar o sentido do vento, fazer subir a maré ou fazer a neblina cercar a ilha, mas que jamais o fazia sem ter alguma razão muito especial para isso, sob pena de perder para sempre o seu poder.

Entrevistei um velho oficial superior da Armada das Índias, que vive atualmente como fazendeiro. Ele fazia parte do coven. Jurou-me que uma vez, num caso de necessidade absoluta, os feiticeiros haviam acalmado a fúria do mar entre as duas ilhas vizinhas.

– Vocês nunca agem contra um ser humano?
– Somente contra o mal, disse o antigo oficial da Armada das Índias. Freqüentemente temos reuniões para lutar contra, ou se preferir, para neutralizar os que têm ou poderiam ter acesso à bomba.

Os Witches Venceram a Armada, Napoleão e Hitler

– Que fazem então?
– E todo o mundo os covens reúnem-se e “trabalham”, fazendo agir sua vontade sobre a vontade desses homens. Se outrora a Invencível Armada foi destruída na tempestade, foi porque todos os covens da Inglaterra haviam se reunido para tal. Agimos também sobre Napoleão no campo de Boulogne e, em 1940, também agimos sobre Hitler, o mal personificado. Freqüentemente o mal se concentra num só individuo que, sem que se possa explicar por que, chega a possuir o dom de enfeitiçamento das massas. Logo que tomamos conhecimento disso podemos agir sobre ele; isso leva um tempo, mas sempre acabamos por destruí-lo.
– Como?
– Pela repetição incansável, pelo pensamento feito vontade. Durante horas, nus no círculo, os feiticeiros murmuram a ladainha: “Não podeis, não podeis, não podeis…”.
– Não é este o princípio de uma central de energia?
– Sempre que trabalhamos – disse-me também o antigo oficial – precisamos dar o máximo possível de nossa “força viva”. Duas coisas nos ajudam: O círculo no qual formamos um grupo “emissor”, e nossa nudez, que permite que coloquemos todo nosso corpo e toda nossa potencia em jogo. Transformamo- nos então em verdadeiros faróis psíquicos.

Prometi não me intrometer. E mantive minha promessa. Mas confesso que quis coletar alguns testemunhos. Conversei com um camponês cujo campo, em virtude de um rito de fertilidade, passou a produzir três vezes mais que os campos vizinhos. Ele não sabia exatamente o que os feiticeiros haviam feito, mas sentia-se altamente reconhecido. E nem queria saber. Mas eu sim: e soube que numa determinada noite de lua nova houve danças de fertilidade em alguns lugares do campo, executadas por feiticeiros e feiticeiras totalmente nus.

Soube também que, num lugar do lado mais meridional do campo foi enterrado um grande falo de bronze apontando para o norte; pessoas dignas de crédito, assim como médicos e professores, confirmaram- me diversos acontecimentos: a filha da rainha do coven foi milagrosamente curada após um acidente e uma velha senhora, autora de cartas anônimas, foi punida graças a uma boneca de cera. Há os céticos, mas que não deixaram de ser tolerantes, assim como os policiais da ilha.

– Enquanto não recebermos queixas, nós os deixaremos dançar nus em locais desertos durante a noite – disse-me o chefe de polícia. Nós os conhecemos bem, os jovens e os mais velhos, mas ao que saibamos, são pessoas perfeitamente respeitáveis.

Os Reis Dedicavam-se ao Paganismo?

Por mais que tentemos minimizar ou enegrecer os fatos, não podemos deixar de admitir que estamos diante de um estranho fenômeno. É difícil analisa-lo, pois só os que se dizem witches sabem se sua fé é sincera. É difícil explica-los. Entretanto, o culto do Deus de Chifres parece subjacente a toda história da Inglaterra.

Aí houve manifestações populares semelhantes às de outros países europeus e também fatos reveladores entre a casta dirigente. Convém citar o famoso incidente que está ligado à origem da Ordem da Jarreteira. Durante um baile oferecido em 1348, por Eduardo III, a condessa de Salisbury perdeu uma jarreteira de cetim azul e de esmeraldas, com uma fivela de diamantes negros e um rubi. O rei a encontrou e devolveu-a a condessa pronunciado o famoso “Honni soit qui mal y pense”.

Por que uma jóia tão suntuosa sobre uma jarreteira que não se vê? Os historiadores discutem há mais de seis séculos esta cena enigmática. Mas eu, que vi os feiticeiros dançarem nus, reconheci, com menos riqueza, a jarreteira da condessa de Salisbury sobre a perna da rainha do coven.

Os feiticeiros reivindicavam expressamente que a condessa seja um deles: o gesto de Eduardo III teria por finalidade não apenas evitar qualquer maledicência da corte, mas principalmente, salvar-lhe a vida, pois dois bispos presentes a esse baile haviam visto a jóia maldita.

Mas então, o próprio Eduardo III teria sido um iniciado? Os witches assim o afirmam. Dizem que a Velha Religião teria desempenhado importante papel na fundação da monarquia inglesa. Lembram que Roberto I, o Magnífico, pai de Guilherme, o Conquistador, sempre foi considerado por seus contemporâneos como um adepto da magia (donde seu apelido Roberto, o Diabo).

Isso não impede que certas frases me tenham levado a pensar que existiam covens espalhados pelo mundo, na América, na Europa, particularmente na França. Não pude saber nada ao certo: um coven pode falar de si mesmo e se seus companheiros estiverem de acordo com isso, mas nada pode revelar sobre outros covens. É preciso esperar, portanto que os feiticeiros franceses, se é que existem, se manifestem. Não há nada de espantoso nisso. A Inglaterra está longe de possuir exclusividade das vivas tradições pré-cristãs.

Os feiticeiros eruditos citam os trabalhos dos sábios folcloristas que, unanimemente admitem atualmente a origem pré-cristã da quase totalidade das tradições, costumes e ritos campesinos na França, na Inglaterra, na Alemanha e em toda a Europa.

Experimentei o Ungüento Mágico

O mundo moderno está limitado a escolher entre as religiões condenadoras que se assemelham a monarquias absolutas e um materialismo recentemente enxertado e onde não circula nenhuma seiva. O Deus de Chifres, o dos celtas da grande e pequena Bretanha, o Dionísio dos gregos, o das fadas e dos elfos, é a divindade da vida.

O Diabo oferece juventude, riqueza e amor com a condição de que compactuemos com ele e que lhe entreguemos nossa alma na hora de nossa morte.

A parábola é clara: é preciso aceitar as leis da vida para obter a felicidade. E todo homem aspira a felicidade. Eu quis experimentar a receita dessas ilhotas perdidas no mar da Irlanda. Fiz uma experiência.

As feiticeiras de antigamente untavam o corpo com um certo ungüento para levitarem. As feiticeiras de hoje também usam um ungüento, mas elas me explicaram que ele provoca um desdobramento que permite que o corpo astral abandone o corpo físico. Monique Wilson já o experimentou. Ela não queria que eu o experimentasse sozinho.

Eu me untei cuidadosamente com uma pomada marrom cuja composição ignoro, mas que cheirava a húmus e folhas mortas.

Tive a impressão de que algo envolvia minha testa e senti uma forte pressão nas têmporas. Ouvi claramente as batidas de meu coração. Entretanto a minha “evasão” limitou-se a isso. A feiticeira esperou um tempo e declarou o fracasso da experiência. Ficaria para outra vez.

O Deus de Chifres certamente não me reconheceu como um de seus devotos. Eu bem que teria compactuado com ele. Mas não é Fausto quem quer.

O Museu de Feitiçaria

O museu de feitiçaria da Ilha de Man foi legado aos Wilsons pelo doutor Gerald B. Gardner, grande Sacerdote da feitiçaria, muito viajado e erudito.

O doutor Gardner havia trazido estranhas lembranças de todas as partes do mundo: armas, manuscritos, livros de magia, amuletos, talismãs, tudo o que pôde encontrar sobre magia e feitiçaria.

Ao que tudo indica, foi somente após a sua morte no Oriente Médio, que suas coleções foram organizadas e que o museu foi instalado2.

Ele não dispõe de catálogo. Em meio a uma barafunda de maus desenhos, documentos absurdos, de objetos de bazares orientais, de lembranças de praias e de estações de águas, o visitante descobre de repente peças de grande valor, assim como extraordinárias mandrágoras, a uma das quais se adaptou uma cabeça de cera de surpreendente beleza, ou pequenos falos voadores da época greco-romana, ou ainda velhos livros e manuscritos, entre os quais se encontra um Grand Albert que nem o British Museum e nem a Biblioteca Nacional da França possuem. Está escrito em latim, francês arcaico, hebreu e alemão. A seu lado estão revistas modernas, sem o menor interesse em valor.

Tudo isso diverte a grande massa de turistas. Há, entretanto outros visitantes que vêm estudar e trabalhar nas horas em que o museu está vazio. Encontrei assim um professor de uma universidade canadense que havia feito a viagem somente para passar algumas semanas no museu.

– Encontrou coisas interessantes? – perguntei.
– Talvez, um dia… Seria preciso fazer a triagem de todos esses absurdos. – respondeu ele sorrindo.
– E isso é tudo?
– Observe, senhor. Quase todos os instrumentos de feitiçaria são peças únicas: e aqui, a nossa frente, ao lado desse manequim de lojas de confecções, vestido com a capa e o chapéu pontudo tradicionalmente usado pelos mágicos, está este livro a se deformar, embolorando- se lentamente. Observe-o com cuidado, senhor… É uma peça única, há tempo esquecida, perdida.

Não pude decifrar uma só palavra desse livro que jazia a minha frente.
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(Fonte: Revista PLANETA – Junho 1973, n°. 10 , Editora Três,

Por George Langelaan)

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