Arquivo mensal: julho 2010

Do Outro Lado da Tarde – Caio Fernando Abreu

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Sim, deve ter havido uma primeira vez, embora eu não lembre dela, assim como não lembro das outras vezes, também primeiras, logo depois dessa em que nos encontramos completamente despreparados para esse encontro. E digo despreparados porque sei que você não me esperava, da mesma forma como eu não esperava você. Certamente houve, porque tenho a vaga lembrança – e todas as lembranças são vagas, agora -, houve um tempo em que não nos conhecíamos, e esse tempo em que passávamos desconhecidos e insuspeitados um pelo outro, esse tempo sem você eu lembro. Depois, aquela primeira vez e logo após outras e mais outras, tudo nos conduzindo apenas para aquele momento.

Às vezes me espanto e me pergunto como pudemos a tal ponto mergulhar naquilo que estava acontecendo, sem a menor tentativa de resistência. Não porque aquilo fosse terrível, ou porque nos marcasse profundamente ou nos dilacerasse – e talvez tenha sido terrível, sim, é possível, talvez tenha nos marcado profundamente ou nos dilacerado – a verdade é que ainda hesito em dar um nome àquilo que ficou, depois de tudo. Porque alguma coisa ficou. E foi essa coisa que me levou há pouco até a janela onde percebi que chovia e, difusamente, através das gotas de chuva, fiquei vendo uma roda-gigante. Absurdamente. Uma roda-gigante. Porque não se vive mais em lugares onde existam rodas-gigantes. Porque também as rodas-gigantes talvez nem existam mais. Mas foram essas duas coisas – a chuva e a roda-gigante -, foram essas duas coisas que de repente fizeram com que algum mecanismo se desarticulasse dentro de mim para que eu não conseguisse ultrapassar aquele momento.

De repente, eu não consegui ir adiante. E precisava: sempre se precisa ir além de qualquer palavra ou de qualquer gesto. Mas de repente não havia depois: eu estava parado à beira da janela enquanto lembranças obscuras começavam a se desenrolar. Era dessas lembranças que eu queria te dizer. Tentei organizá-las, imaginando que construindo uma organização conseguisse, de certa forma, amenizar o que acontecia, e que eu não sabia se terminaria amargamente – tentei organizá-las para evitar o amargo, digamos assim. Então tentei dar uma ordem cronológica aos fatos: primeiro, quando e como nos conhecemos – logo a seguir, a maneira como esse conhecimento se desenrolou até chegar no ponto em que eu queria, e que era o fim, embora até hoje eu me pergunte se foi realmente um fim. Mas não consegui. Não era possível organizar aqueles fatos, assim como não era possível evitar por mais tempo uma onda que crescia, barrando todos os outros gestos e todos os outros pensamentos.

Durante todo o tempo em que pensei, sabia apenas que você vinha todas as tardes, antes. Era tão natural você vir que eu nem sequer esperava ou construía pequenas surpresas para te receber. Não construía nada – sabia o tempo todo disso -, assim como sabia que você vinha completamente em branco para qualquer palavra que fosse dita ou qualquer ato que fosse feito. E muitas vezes, nada era dito ou feito, e nós não nos frustrávamos porque não esperávamos mesmo, realmente, nada. Disso eu sabia o tempo todo.

E era sempre de tarde quando nos encontrávamos. Até aquela vez que fomos ao parque de diversões, e também disso eu lembro difusamente. O pensamento só começa a tornar-se claro quando subimos na roda-gigante: desde a infância que não andávamos de roda-gigante. Tanto tempo, suponho, que chegamos a comprar pipocas ou coisas assim. Éramos só nós depois na roda gigante. Você tinha medo: quando chegávamos lá em cima, você tinha um medo engraçado e subitamente agarrava meu braço como se eu não estivesse tão desamparado quanto você. Conversávamos pouco, ou não conversávamos nada – pelo menos antes disso nenhuma frase minha ou sua ficou: bastavam coisas assim como o seu medo ou o meu medo, o meu braço ou o seu braço. Coisas assim.

Foi então que, bem lá em cima, a roda-gigante parou. Havia uma porção de luzes que de repente se apagaram – e a roda-gigante parou. Ouvimos lá de baixo uma voz dizer que as luzes tinham apagado. Esperamos. Acho que comemos pipocas enquanto esperamos. Mas de repente começou a chover: lembro que seu cabelo ficou todo molhado, e as gotas escorriam pelo seu rosto exatamente como se você chorasse. Você jogou fora as pipocas e ficamos lá em cima: o seu cabelo molhado, a chuva fina, as luzes apagadas.Não sei se chegamos a nos abraçar, mas sei que falamos. Não havia nada para fazer lá em cima, a não ser falar. E nós tínhamos tão pouca experiência disso que falamos e falamos durante muito e muito tempo, e entre inúmeras coisas sem importância você disse que me amava, ou eu disse que te amava – ou talvez os dois tivéssemos dito, da mesma forma como falamos da chuva e de outras coisas pequenas, bobas, insiginificantes. Porque nada modificaria os nossos roteiros. Talvez você tenha me chamado de fatalista, porque eu disse todas as coisas, assim como acredito que você tenha dito todas as coisas – ou pelo menos as que tínhamos no momento.

Depois de não sei quanto tempo, as luzes se acenderam, a roda-gigante concluiu a volta e um homem abriu um portãozinho de ferro para que saíssemos. Lembro tão bem, e é tão fácil lembrar: a mão do homem abrindo o portãozinho de ferro para que nós saíssemos. Depois eu vi o seu cabelo molhado, e ao mesmo tempo você viu o meu cabelo molhado, e ao mesmo tempo ainda dissemos um para o outro que precisávamos ter muito cuidado com cabelos molhados, e pensamos vagamente em secá-los, mas continuava a chover. Estávamos tão molhados que era absurdo pensar em sairmos da chuva. Às vezes, penso se não cheguei a estender uma das mãos para afastar o cabelo molhado da sua testa, mas depois acho que não cheguei a fazer nenhum movimento, embora talvez tenha pensado.Não consigo ver mais que isso: essa é a lembrança. Além dela, nós conversamos durante muito tempo na chuva, até que ela parasse, e quando ela parou, você foi embora.

Além disso, não consigo lembrar mais nada, embora tente desesperadamente acrescentar mais um detalhe, mas sei perfeitamente quando uma lembrança começa a deixar de ser uma lembrança para se tornar uma imaginação. Talvez se eu contasse a alguém acrescentasse ou valorizasse algum detalhe, assim como quem escreve uma história e procura ser interessante – seria bonito dizer, por exemplo, que eu sequei lentamente seus cabelos. Ou que as ruas e as árvores ficaram novas, lavadas depois da chuva. Mas não direi nada a ninguém. E quando penso, não consigo pensar construidamente, acho que ninguém consegue. Mas nada disso tem nenhuma importância, o que eu queria te dizer é que chegando na janela, há pouco, vi a chuva caindo e, atrás da chuva, difusamente, uma roda-gigante. E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa – depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou.

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Por aqui as coisas ameaçam mudar, mas não mudam. Eu acho a todo momento  que vou chegar no equilibrio entre os fatos, mas no momento seguinte percebo que era só mais uma ilusão.

A minha sensação é a de quem está vivendo aquele mesmo dia uma cem vezes.  Nada muda de fato. Nada chega a um real fim. Nada de novo se inicia. A roda travou e não voltou a girar.

Eu fico esperando ser surpreendido pelas pessoas, mas pelo contrário, só escuto o que eu não quero, só tenho decepções. Palavras vazias já não me satisfazem, eu preciso de atitudes.

Eu quero que a roda volte a girar. Eu quero que uma nova fase se inicie, preciso me reciclar. Viver de ilusões acreditando que tudo está bem quando não está, já não me basta, e já deixou de ser interessante.

Metade do semestre. A faculdade me cobra o que eu não posso oferecer. Sinto vontade de mudar de curso mais uma vez ou correr e terminar o atual só pra ter o diploma. Sem falar que as constantes greves (faculdade Estadual) nada colaboram. O calendário está maluco. Por que será que eu tenho a necessidade de ficar ‘trocando de pele’ sempre? É até saudável, mas não com tanta frequência.

Enfim, emprego em vista e num futuro não muito distante, morar sozinho vai deixar de ser apenas um plano, mas algo concreto. Vamos lá, é preciso falar menos e fazer mais. =D

[Atrás dos Olhos Azuis]

Ninguém sabe como é
Ser o homem mau
Ser o homem triste
Atrás dos olhos azuis
E ninguém sabe
Como é ser odiado
Ter que fingir que só conta mentiras

(Refrão)

Mas meus sonhos não são tão vazios,
Como minha consciência os faz parecer
Eu passo horas só de solidão
Meu amor é uma vingança
Que nunca será livre.

Ninguém sabe como é
Sentir esses sentimentos,
Como eu sinto, e eu te culpo!
Ninguém morde mais forte
Na sua raiva
Ninguém, para minha grande aflição
Pode me mostrar seus pensamentos

(Refrão)

descubra l.i.m.p. diz isto (4x)

Ninguém sabe como é
Ser maltratado, ser derrotado,
Atrás dos olhos azuis
Ninguém sabe dizer
Que eles estão arrependidos e para não se preocupar
Eu não estou mentindo

(Refrão)

Ninguém sabe como é
Ser o homem mau
Ser o homem triste.
Atrás dos olhos azuis

Música original: THE WHO

No one knows what it’s like
to be the bad man
to be the sad man
behind blue eyes
and no one knows
what it’s like to be hated
to be faded to telling only lies

(chorus)

but my dreams they aren’t as empty
as my conscious seems to be
I have hours, only lonely
my love is vengeance
that’s never free

no one knows what its like
to feel this feelings
like I do, and I blame you!
no one bites back as hard
on their anger
none of my pain woe
can show through

(chorus)

but my dreams they aren’t as empty
as my conscious seems to be
I have hours, only lonely
my love is vengeance
that’s never free

discover l.i.m.p. say it (x4)

no one knows what its like
to be mistreated, to be defeated
behind blue eyes
no one know how to say
that they’re sorry and don’t worry
I’m not telling lies

(chorus)

no one knows what its like
to be the bad man, to be the sad man
behind blue eyes